23/01/2010

Os bastantes

Não são muitos os anos que tenho de uso da toga. São alguns. Os suficientes. Talvez por ter estagiado com Senhores mais velhos detentores de experiência a sério - trinta e cinco anos é Obra - talvez por estar rodeada de Colegas que vão dos 8 aos 80, em todos os lados das bancadas, que usam toga, beca e a simples capa, tenho uma visão ecléctica da arte. Sim, para além de Profissão, é arte no mais puro sentido aquilo que pode ser feito e conseguido no mundo das leis. Mas, há sempre um mas, nunca é tarde para aprender e sentir na pele aquilo que sempre ouvimos. O que guardo com mais certeza é o ensinamento Primeiro que recebi, em 2001. "Menina, nunca te esqueças: há segredos que nos acompanharão até morrer. Nunca te esqueças!". E ao longo destes quase dez anos não tenho esquecido. Coisas que ouço e que vejo. Porque quem entra por aquela porta e se senta na minha frente o mais das vezes e quase sempre fá-lo porque tem um problema. E eu vesti a roupa de tratar, ouvir e sentir os problemas dos outros, com tudo o que isso engloba. Mesmo que os outros sejam egoístas ao ponto de se esquecer que também nós temos vida e problemas. Mesmo assim. É assim. Claro que também temos os malucos, mas o Mundo está cheio deles em todo o lado e nada pode ser feito. Isto tudo para dizer que acabo de sentir na pele, um outro "ensinamento", este mais volátil e duvidoso. Apesar de fonte insuspeita e fidedigna, sempre quis acreditar que não era bem assim. Erro. É que é. Medo, muito medo quando o Magistrado que encontramos num processo não se mantém até final e outras mãos, que não as originais, apanham a pasta do processo. É sempre assim? Continuo a acreditar que não. Mas que acontece, acontece. E eu acabo de o sentir na pele. Um bom Sábado, que o Trabalho, aquele que eu gosto e escolhi, chama por mim.

5 comentários:

Carlos Azevedo disse...

Apesar de tudo - e este tudo engloba tanto, tanto -, há coisas que ainda têm a capacidade de surpreender-nos, não é verdade?
Bom fds.

Patricia Lousinha disse...

Não duvides, Carlos. Têm mesmo. Mesmo quando nós pensamos que já nada nos surpreende. Bjs e bom fds

Don Miguez disse...

Na minha humilde opinião pelo pouco que fui vendo desde Maio até agora e por aquilo que te conheço "essas surpresas" só servirão para te fazer AINDA mais forte.Fantástico o que expuseste.Gostei!

João disse...

Peço desculpa por estar a levantar um assunto "off-topic" mas não posso de o deixar fazer uma vez que falaste na palavra "toga"
Na minha humilde opinião, eu acho que o uso da toga pelos juízes, nos tempos de hoje é, no mínimo, ridículo, no caso dos advogados/procuradores nem sequer tenho palavras para descrever tamanha "ridicularizez" Gostava de ouvir a tua opinião acerca disto...

Obrigado

Nota- não estou de qualquer forma a criticar o trabalho de juízes/advogados/procuradores, estou apenas a criticar a toga, nada mais que isso...

Pedro Cruz disse...

A Patrícia ainda não respondeu ao repto do João mas, se me permitem, tentando poupá-la, faço-o eu, nem que seja provisoriamente:
Aqui neste blogue, p.e., sabemos que há dois símbolos incontornáveis, para além da toga: A maçã e o padrão axadrezado. Ninguém vem ao engano.
De facto, a sociedade hodierna continua a respeitar e a viver com símbolos e mesmo hoje não passa sem eles. Alguns entendem, até, que hoje muito mais do que antes. O João já reparou na importância dos símbolos desportivos num clube? Não são eles, também, ridículos aos olhos de um não aficionado? É certo que o Benfica já se adaptou aos novos tempos com um elegante equipamento cor-de-rosa... mas o certo é que o equipamento em si continua a ser vaklorizado, ao ponto de render milhões em réplicas vendidas aos fãs e de inspirar sentimentos idênticos em milhões de adeptos...
Ora, a Justiça, essa coisa indefinida que até uma criança pequena sabe o que é, transcende o ser humano e a sua contingência. Sendo um fenómeno humano tem qualquer coisa de sagrado, que toca no íntimo da nossa dignidade - cfr. o mito de Témis e de Diké. Os seus ministros (sacerdotes) actuais - juízes, prouradores públicos e advogados - tentam aplicá-la no caso concreto observando um ritual rigoroso previsto em livros que, não sendo sagrados, contêm a lei. Lei essa que deverá ser, num Estado de Direito Democrático, emanada do próprio povo. Estão, por isso, em nome do povo, através de um rito ou cerimonial, a aplicar a Justiça no caso concreto, tentando dirimir conflitos. Ora, num qualquer cerimonial - religioso ou laico - há sempre elementos cénicos e simbólicos que desempenham várias funções importantes. No nosso caso - a administração da Justiça - as togas e as becas desempenham funções específicas e simbólicas: A primeira é a de convidar/ajudar os envolvidos e/ou o público a tomar consciência da importância do acto e do processo que resulta em «dizer o justo ou o direito» (juris dicere - de onde vem a palavra jurisdição e a função jurisdicional), procurando assim suscitar respeito e até conter os ânimos dos litigantes, mantendo a discussão dentro das regras do rito. Depois, com o aparato desses símbolos, ajudá-los a acatar voluntariamente o «direito dito», como resultado desse processo conduzido por tais ministros. Com uma enorme vantagem: evitam-se novos conflitos e poupam-se meios de coacção para impor as decisões e a ordem que, de outro modo, seriam mais frequentemente necessários.
Portanto a questão não é apenas de moda mas principalmente de símbolo. Estes símbolos são ridículos? Arranjem-se outros, quiçá umas togas cor-de-rosa.