06/02/2008

Depois a gente arranja a coisa

Desde 1 de Janeiro que fumar, o acto, está condicionado. Condicionado por causa dos outros, os que não fumam. E ao espaço onde nós que fumamos e os outros, que não fumam, se encontram.
Enquanto fumadora nunca me passou pela cabeça fumar num hospital, numa repartição pública, num espaço de dimensões reduzidas onde para além de mim se encontram mais pessoas, ou onde estão crianças, e muito menos acenderia um cigarro, num espaço onde só eu fumo sem perguntar, aos outros, os que não fumam, se não se importam. Mas bem sei que nem todos, nós, os que fumamos, têm, perdão, tinham, esse cuidado ou atenção.
E portanto, agora, supostamente tudo é melhor. As pessoas, os outros, aqueles que não fumam até estão mais saudáveis e tudo. Pena é que, agora, quando entro num café ou restaurante, tenha que levar com o cheiro dos outros, os que não fumam. O cheiro a pessoas, que, em bom rigor e como todos sabem, nem sempre prima por ser um bom cheiro. E muito menos saudável. Adiante.
Bem, a lei entrou em vigor e como bons portugueses fumadores que somos, sim, é conditio sine qua non, tratou-se logo de aproveitar este imenso mundo global, a rede de alcance mundial, world wide web, e dedicar páginas, blogues e afins para a troca não de seringas isso não!, de roteiros. Tipo, sítio onde podemos entrar e estar como muito bem nos apetece. De cigarro acesso, antes, durante, ou depois de uma refeição ou café. Sim, refiro-me exclusivamente aos sítios onde é possível fumar, conversar, comer, confraternizar não necessariamente por esta ordem. E ao preparar a continuação e conclusão dos meus festejos de aniversário apercebi-me que o que esses roteiros não dizem é que não tenha a pretensão vã, sim que sai o tiro pela culatra com toda a certeza, de reservar uma mesa para grupos. "Ah, pois, mas reservas assim não aceitamos. O que pode fazer é chegarem todos (sublinhar o todos, porque era dito de forma sublinhada e a negrito, ainda que oralmente transmitido) ao mesmo tempo. E assim vamos juntando as mesas", todos ao mesmo tempo? perguntei eu, "sim, sim. Caso contrário peço desculpa, mas não aceitamos reservas", ora assim sendo, muito obrigada, mas assim não me passa sequer pela cabeça pensar em deslocar-me aí, para jantar. Como há-de convir, não tenciono fazer uma excursão e assegurar que todos cheguem ao mesmo tempo, disse eu. "Pois, eu entendo. Mas se fosse meia dúzia de pessoas ou pouco mais que isso não haveria qualquer tipo de problema. Se bem que não aceitamos de todo, reservas..."
Mais de dez foram os restaurantes. Aqueles que tentei reservar mesa. Aqueles onde nós, os fumadores, têm carta branca para fumar.
Mas uma das respostas que tive e que me deixou absolutamente maravilhada, foi a que recebi de um funcionário de um restaurante aqui no Cais de Gaia. É permitido fumar?, perguntei, torcendo dez dedos e mais alguns para que me dissesse que sim, que era, "ora bem, não. Mas é para quantas pessoas?", trinta, respondi. "Olhe, o que interessa é que estejam aqui dentro e que apreciem. Depois a gente arranja a coisa!", mas arranja a coisa como? colocam a mesa lá fora?, "não, isso não. Mas digo-lhe, o que interessa é estar aqui dentro. Depois a gente arranja a coisa", voltou a dizer. Não me diga que os senhores vão fechar o restaurante e todos os trabalhadores são fumadores, tapam as janelas imensas para ninguém ver do lado de fora e permitem que se fume? como se estivéssemos a fumar às escondidas da mãe. É isso que o senhor quer dizer?, perguntei eu, quase a desesperar com o que ia ouvir. "Não, claro que não. Mas sabe como é." Sim sei como é e precisamente por isso é que espero ver que tipo de solução é que o Senhor vai dar-me e olhe, não sou da ASAE! "É como lhe digo, o que interessa é estar aqui dentro, depois a gente arranja a coisa!". Pois, compreendi-te. Agradeci e respondi, até uma próxima vez. Quando e se deixar de fumar. Quando e se caso não deixe, os senhores decidirem ter um espaço para nós, os que afinal são os verdadeiros outros, os fumadores.
Boa noite e ainda bem que não sou da ASAE, voltei a dizer-lhe. Se bem que tenho quase a certeza que para ele era perfeitamente indiferente se o fosse. A resposta, depois a gente arranja a coisa, seria a mesma!
Assim sendo Campo Alegre, Le Restaurant aí vamos nós. Ali nós, os verdadeiros outros, os fumadores, até temos lugar. Até podemos fumar. E, pasme-se, até nos deixam reservar mesas!

9 comentários:

JM Coutinho Ribeiro disse...

Não conte a ninguém, mas uma destas noites, na esplanada do Arrábida, um frio tramado, entrou um casal, ele fumador, ela não, e quando passaram por mim, disse ela, horrorizada, que horror, é só fumadores e, acredite, mas não conte a ninguém, eu insultei-a - insulto feio, mesmo - sem som, mas ela percebeu pela forma como se formam os lábios, que de outra forma era chato, que o que parecia ser o namorado era grande como o diabo. Ao que nós chegamos!

Patricia Lousinha disse...

Tem toda a razão. Ao que nós chegamos. É uma perseguição e ameaça constante, é o que é! Mas eu não conto a ninguém que o fez, sendo que, caso fosse eu, teria feito muito pior. Com as ganas com que ando! Mas pense assim, com um namorado, ou whatever, desses, a única altura e os únicos que poderiam e podem levar com o desabafo da alma, supostamente normal e saudável, são os de fora... Sob pena de levar uma tareia dentro de casa!

filipe m. disse...

Caríssimos, responder a uma constatação de um facto, ainda que depreciativa, com uma mera especulação não é de todo a melhor forma de defesa!


... acham melhor começar a fugir?

Patricia Lousinha disse...

Qual é o facto? Ai que horror são só fumadores?
Qual é a especulação? Levaria uma tareia, dentro de casa, caso o "desabafo" fosse entre as quatro paredes?
Vá, começa a fugir Senhor Filipe! :)

JM Coutinho Ribeiro disse...

Fui jantar esta noite ao restaurante Campo Alegre com a miudagem. Estou à espera que, um destes dias, me impeçam de entrar num lugar para fumadores com menores de 18 anos :-)

Patricia Lousinha disse...

Tem noção que já faltou mais, não tem?

JM Coutinho Ribeiro disse...

Tenho, tenho. Sempre fui um tipo muito intuitivo :-)

filipe m. disse...

Ó p'ra mim a dar à proverbial sola!

E por acaso a especulação referia-se ao "insulto feio", também por mim especulado que tenha sido proferido na situação original. :)

Patricia Lousinha disse...

A Excelência CR terá dito "oh que maçada, a senhora é um bocadinho incomodativa." Aposto que foi algo de género...
Já o especular e "Dar à proverbial sola" é uma coisa deveras feia. Tenho dito!