Porque sim, ora!
Sou boavisteira porque sim, tal qual a idade parva das perguntas e dos porquês e logo aquela que vem quase a seguir. A dos "porque sim", se bem que comigo é mais "porque sim, ora!". Eu sou boavisteira porque o Bessa foi o primeiro estádio onde entrei para assistir a um jogo de futebol. Estava no meu segundo ano da Faculdade e convidaram-me para ir à bola. O meu Boavista recebia em casa o Sporting. Estávamos a meio de um ano lectivo que trouxe ainda mais amigos adeptos de clubes "diferentes" e "menores". E o grupo, era eclético, que o era. E é. Havia portistas, o Paulo Rangel, Sportinguistas, a Filipa Calvão e Boavisteiros, claro, o Azeredo Lopes e o Nuno Pinheiro Torres. E o Prof. Azeredo, estava empenhado em aumentar o número de adeptos pretos e brancos, axadrezados, ou remendados, como os portistas têm gosto em rotular (depois estranhem ouvir o que ouvem relação a Vós, oh almas, azuis e brancas). E eu, que sempre gostei de novos desafios, mesmo que esses significassem ir para o meio da confusão de um jogo de futebol ao domingo, e até era uma portista, triste, cabisbaixa, com o que se ouvia em relação ao clube (sim, já sei, agora vem a piada de que mudei de cavalo para burro seguida da piadola que mudei para o clube dos meninos bem aqui do Porto. Porque o de Lisboa todos sabem que pertence ao Sporting e ao Belenenses), lá fui. Lá fomos. E aqueles 90 minutos fizeram toda a diferença (não, não teve nada a ver com a jantarada que se seguiu, sim, que eu não me movo só por comida!). E o Boavista ganhou! E foi lindo! Foi tão lindo! E eu vibrei mesmo com aquele espectáculo . E mesmo que tivesse perdido eu teria vibrado. E porquê? Porque sim! E assim tornei-me sócia do Bosvista. Lembro-me que na semana seguinte, estava a entrar no Gabinete da Biblioteca Paraíso, Gabinete de Estudos Internacionais, e lá estava ela, a minha proposta de sócia, para o Boavista, devidamente assinada pelo Prof. Azeredo. Ainda me lembro como ficou contente em ter conseguido mais um adepto. E não, não fui coagida! A cadeira estava feita, há muito, e a nota devidamente lançada. Foi com gosto que forneci os elementos que faltavam na proposta. Foi mesmo. E assim foi. Era sócia do Boavista, do meu Boavista. Porque sim, porque é o "dono" do primeiro estádio onde entrei para assistir a uma partida de futebol. E eu sou assim mesmo, defendo a casa mesmo que a casa pertença a pequeninos e fracos. Não defendo porque são grandes, ou porque ganham.
Defendo porque acredito, independentemente de tamanhos, números, resultados ou taças. Mas esta sou eu. É a minha sina. "Os fracos e oprimidos", como diria a C.. Ela que o diga, que não me deixou ir sozinha para a A.M.I., naquela que foi a minha fase do voluntariado, a fase de querer partir em missão para África. Mas isso são outros futebóis... Adiante.
Toda a gente sabe e eu sou a primeira a admiti-lo, como se preciso fosse, que não percebo puto de futebol. A única coisa que sei é que futebol é uma questão de paixão. Não tem lógica, não tem razão científica. Também por isso sou do Boavista. E do Beira-mar. E do Olhanense. E do Leixões. E da Selecção Nacional.
A única coisa que tenho a certeza é que não percebo puto de futebol e que só sei dizer se gosto, ou não, de ver uma partida de futebol. Se bem que, em bom rigor, gosto mesmo é de ouvir o relato na rádio. Porque sim, ora! E quer ganhe, ou perca, a minha equipe, gosto de saber, ouvir, ver, que marcou golos. E mais que um...
Por isso hoje, depois de 10 jogos nesta jornada sem nenhuma vitória, depois de todos os escândalos que se passam no Boavista, a uma semana de eleições para a "nova" Direcção do clube, depois de ver que os jogadores do meu Boavista são efectivamente, que o são, números e são tratados como carne na montra de um talho, preparada para ser retalhada e vendida, depois de perder na Luz, por 6-1, continuo a dizer que não há mesmo lógica nenhuma, nisto da bola. É paixão, pura. Claro que fiquei triste por perder na Luz. Claro que foi uma abada monumental. É um facto.
Mas se tivessem perdido tipo 10-6, palavra que já não estaria tão desencantada. Sim, porque para mim, a beleza da bola, o futebol espectáculo, é isso mesmo: resultados gordos, com muitos golos. Independentemente de se perder. Razão, teorias, justificações, lógicas, não temos. É assim, porque sim, ora!


