18/08/2004

Maria

Maria é uma pessoa comum. Igual a tantas outras. Saída da mesma fornalha de mais de noventa por cento dos mortais.
Maria tem um sorriso alvo que contrasta de forma exímia com o escárnio e maledicência que recebemos em todas as palavras que não diz. Mas que as pensa… porque as pensa. A sua consciência só as deixa pensar. Extraordinário! Maria, afinal, tem consciência…
Mas Maria não tem coragem de dizer tudo o que pensa. E é pena. Porque Maria deve pensar muito…
Maria tem uma maneira de ser que cativa quem a rodeia. E que quase nos faz pensar “porque não somos assim?”. Mas Maria deixa cair a sua “primeira-de-mão-de-verniz” quando, quem a rodeia – aqueles dez por cento -, pára para reparar.
Se há coisa que não mente e não engana é o olhar. E se repararmos no olhar que Maria nos deita e deita a quem passa, e o olhar daquilo que pensa de quem fala, mesmo não dizendo tudo aquilo que pensa (mas pensa-o…), percebemos que Maria cada vez mais é uma pessoa comum.

Nem sempre somos fáceis de entender. E muito menos de gostar. É preciso paciência. Atenção. Dedicar tempo a reparar. E saber esperar.
As coisas não são como queremos. E não podemos moldar os outros como se fossem um bocado de barro – execrável, é certo - nas nossas mãos.
Mas enquanto esperamos e reparamos, construímos as nossas teses mentais. Mortais, é certo. Mas teses.
Maria não deve gostar muito de si. Mas em contrapartida gosta de tudo aquilo que vê nos outros. Independentemente de ver nos outros muito ou pouco…
Independentemente de, aquilo que vê, a leve a ponderar “porque não sou eu assim?”.
Maria tem inveja de tudo o que a rodeia? Não. Maria só sabe ver. Nem concebe que seja possível reparar no que a rodeia.
Mas Maria tem pena de não conseguir ser como tudo o que a rodeia. De não conseguir ter o que quem a rodeia tem. Mesmo que não tenha, mas Maria pensa que tem. Porque Maria até pensa.
Independentemente de ser bom ou mau o que a rodeia. Maria não gosta mesmo de si.

Maria é uma pessoa comum. Maria é mais um. Um comum mortal.
Igual a quase noventa por cento de tudo o que nos rodeia… e por isso Maria não tem necessidade em mudar. Faz parte da maioria. Para o bem ou para o mal, Maria situa-se na maioria.

Abençoados os que não são comuns. Mesmo estando rodeados de pessoas comuns… Mais abençoados sejam esses!
Abençoada Maria que nos faz entender o porquê da nossa diferença. O porquê da nossa minoria.

17/08/2004

Vénus de Milo. Perdão, vírus do Nilo!

"O vírus do Nilo Ocidental foi agora identificado em mosquitos capturados numa zona da Ria Formosa, no Algarve. Em entrevista, Aida Esteves, directora da Unidade de Virologia do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, sustenta que, em Portugal, o risco de as pessoas se infectarem é "diminuto e quase nulo, se evitarem a exposição à picada de mosquitos". "
Assim reza o Público de hoje. Aliás, o de ontem.
Gostei muito de ler a entrevista e de saber que a equipa de Aida Esteves tinha "focado" mais a pesquisa na zona onde tinham estado os turistas irlandeses, ao pé da Quinta do Lago, do observatório e do centro de recuperação de aves do Parque Nacional da Ria Formosa e ainda de algumas ETAR [estações de tratamento de águas residuais] de Loulé e Olhão (turistas irlandeses, seus marotos, a desviarem a focagem da equipa dessa maneira...).

Mas o que me deu um enorme alento, exactamente inverso ao tamanho dos animais a pesquisar, foi saber que o risco em Portugal é quase nulo caso as pessoas evitem a exposição à picada.

E assim como quem não quer a coisa, pergunto eu: mas como é que eu evito a exposição à picada? Fecho-me num quarto completamente isolado, selado, a uma altitude superior a 1500 metros, até desaparecerem todos os mosquitos do planeta?
Despejo em cima de mim tudo o que seja repelente de mosquitos?
Para além de utilizar insecticidas de uso doméstico; redes mosquiteiras e camisas de manga comprida, calças e meias. Abençoado Agosto com chuva....
Como se mesmo assim as pessoas não fossem mordidas! Ele há quem tenha o triste fado de levar com picadas, ora!

Com exactidão, exactidão, não sei quais os presságios do vírus. Pode provocar sintomas que variam desde uma febre moderada até doenças mais graves.
O que não abarca assim muita coisa, portanto... Só 59 mil!!! Ou mais!
Tendo em conta aquela frase, que tanto me apazigua, cá para mim Aida Esteves já foi mordida. Por um irlandês... Perdão, por um mosquito atrevido que anteriormente mordeu um turista irlandês!

15/08/2004

Bilhetes de ida e volta

Quem disse que o Sol estava para durar?
Quem julga que ainda vai ter tempo de praia e mar?
Quem pensa que o tempo em Setembro vai ser igual ao do ano passado?
Ah, já sei. Deve ser a mesma pessoa que disse que formatar o computador era coisa para ser feita de seis em seis meses. Que erros fatais apareciam de quando em vez...
Ah! Fui eu!
Somos mesmo idiotas, não?

12/08/2004

Sol

O sol voltou!
E assim vai continuar. Pelo menos é o que diz o windGuru.
Maravilha!
Maravilha para quem está de férias, ora!

08/08/2004

Como disse? Pode repetir?

"- E de sobremesa vai ser?
- Toucinho do céu, que é como quem diz "heavenly bacon"..."
Mas também poderia ser umas natas do céu (heavenly cream)!
Gosto particularmente dos "savoury meat envelopes" (rissóis de carne) e de "codfish panada" (açorda de bacalhau).
Mas nada de confusões, no Porto, a tradição (que de quando em vez ainda é o que era) é francesinha, ou melhor, " meat and cheese sandwich with Piquant Sauce).
Traduções by ementa do Ar de Rio, Cais de Gaia.

06/08/2004

Eu, os outros e o espelho

Ainda na senda da extraordinária viagem nos novos comboios da C.P., presenciei a algum não menos extraordinário.

Estava moi même a tomar nota mental de tudo o que me rodeava quando deparo com o riso meio abafado da rapariga que viajava no banco da frente.
Ora, “riso?”, “Patrícia, vamos prestar atenção”, pensei eu de mim para comigo.
E assim fiz.

Mas, sinceramente não percebi nada que tivesse qualquer tipo de piada. “Bolas, tenho um risco na cara?”, “esqueci-me de tirar o nariz de palhaça?”, questionei. Não, nada disso.
A rapariga ria para mim e não de mim, como quem pede auxílio para não continuar a fazer figura de parva quando nos rimos, exteriormente, sós. Pedido de auxílio ao qual não podia de todo ser indiferente. “É prestar ainda mais atenção”, retorqui.
E de repente fez-se luz! Qual ensaio sobre a cegueira (um dia falarei sobre isto…).

No banco da frente seguia um Sr. que ao telemóvel dizia: “olha, lá, então a tua amiga fulana de tal, ainda está no departamento de não sei o quê da C.P.?”, “ai sim?”, “então vais-me fazer o favor de perguntar se é permitido, aliás, qual é a regulamentação interna da C.P. que proíbe viajar com os pés esticados e pousados no banco da frente, está bem?”, “sim, sim, eu aguardo que me ligues a dizer qualquer coisa”, “sim, porque eu aposto que há uma regulamentação interna a proibir isso”, “era só o que mais faltava não existir nada.”

Palavra de honra se percebi alguma coisa. Percebi que algum ignóbil estava a gastar dinheiro ao telemóvel, a falar alto (todo o comboio deve ter ouvido aquela conversa, bem, quase todo) e a ser o motivo de riso da rapariga, minha companheira de banco.

E de repente, fez-se luz, de novo (nem quero pensar na conta da electricidade deste mês…)!
Qual não é o meu espanto, quando, reparo que um Sr. que viajava no banco paralelo ao nosso, dormitava (gostava de saber como conseguia, porque, sinceramente é difícil com tanta luz e com aquela música de fundo…), com os pés esticados e apoiados no seu banco da frente!
Ah! Que desplante! Que desfaçatez! Como te atreves tu, oh alma, a esticar os pés, quando, por infortúnio (digo eu) viaja na mesma carruagem um Sr. com os mais elevados conhecimentos dentro dos meandros da C.P.?

Eu não queria acreditar que alguém fosse capaz de fazer um telefonema daquele género…
Meu Deus! Mas será que aquele génio (o do telefonema, claro está, que o outro, o dos pés esticados, se alguma genialidade lhe assistia, perdeu-a por completo) fará o mesmo telefonema a alguém quando o seu vizinho da frente precisar de um conhecimento no hospital, ou precisar de saber quais são os direitos que assistem quando esse mesmo vizinho receber uma carta do senhorio a aumentar-lhe sem mais nem porquê a renda?
Cheira-me que não. Mas isso sou eu, ou melhor, o meu nariz, de qualidades olfactivas inquestionáveis, a cheirar…

Tal brilhante alma saiu na estação de Cortegaça.
E a história fica por aqui, pensei eu.
Mas não.
Pois, curiosamente, no vidro do banco onde foi sentado toda a santa viagem, podia ler-se em letras quase garrafais (sem necessidade de ligar a alguém conhecido nos meandros da C.P.): “lugares reservados a pessoas de mobilidade reduzida, grávidas e acompanhantes de crianças ao colo”…
E garanto que aquele homem não preenchia nenhuma das três hipóteses.
Para além de homem, com porte pseudo atlético, levava um maço de tabaco na mão, pronto a ser utilizado mal saísse na estação…

Olhar para os outros e apontar o dedo sem antes olhar para o espelho e ver aquilo que este nos reflecte, nem sempre é boa política….

03/08/2004

Destino: Aveiro

Viajar nos novos comboios que fazem os percursos dos suburbanos, é, sem dúvida, altamente recomendável.
Primeiro por causa das espécies humanas que nos fazem companhia ao longo de todas as estações e apeadeiros até chegar ao nosso destino e, depois, porque até parece que estamos com um século de avanço em relação a tudo o resto.

Domingo, 25 de Julho. 21.30. Estação de Vila Nova de Gaia. Destino: Aveiro, pois claro.
As carruagens são comuns. Nada de portas a dividir. Estilo todos juntos e Fé em Deus...
Luz é coisa que não falta. Quem pensa que durante a viagem pode dormitar está redondamente enganado!
Para além da luz, quase que imaculadamente branca, temos a música!
Já não precisamos de levar leitores do que quer que seja para ter música durante o passeio. A C.P. encarregou-se de tudo isso! Nada de dorminhocos e ouvidos que levam com lixo musical, portanto.

Em todas as paragens (que bom saber que paramos em todas as estações e apeadeiros...), uma voz simpática, feminina é certo, tem a delicadeza de nos dizer onde estamos.
Acho que é a mesma voz da PT e da Vodafone, da TMN e da Optimus, e de mais 59 mil coisas.
Curiosamente nada tem a ver com a voz dos Alfas!

No fim de cada carruagem temos um painel que nos vai dizendo qual é o destino daquele comboio; a próxima paragem; as horas e a temperatura exterior.
Mas o mais importante é que nos diz para que lado é a saída!
Sem qualquer ironia, até que enfim que se lembraram disto. Quantas e quantas vezes fico naquele impasse: "e a saída é para que lado, mesmo?". E lá fico eu a meio da carruagem, a aguardar pacientemente que uma porta se abra. Desta feita, problema resolvido!
É só olhar para a setinha!

E a limpeza das carruagens? Tudo limpinho! Nada de escritas e riscos. Nada de "Vanessa ama Leandro". Uma beleza...
Claro que o facto de os comboios serem relativamente novos e terem tanta, mas tanta luz, ajuda. Digo eu.
E é tudo tão amplo que nem parece que estamos num cubículo de uma carruagem!
É o que eu digo: com os novos suburbanos ficamos um século adiantados!

Perguntas idiotas

"-Então o Sr. veio aqui para ajudar, foi?
-Pois, carago! Então vinha aqui para ver, era?".
(incêndio em Penafiel, a 26 de Julho)